| Música Popular Brasileira
Brasil Áfri |
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Maria José
Francos seus olhos me fitam
Forte, sua fronte medita
Fundo, sua fibra me grita:
fora de mim co'a fraqueza!
Cá dentro é firmeza!
Pois quem acredita
faz a verdade fluir mais bonita
E entra
E enfrenta
E confia até o fim
Se desafia
Se afia
Encarna enfim...
Fartos, seus lábios me atritam
Feto, meu corpo lhe habita
o ventre, floresta afrodita
entre afro-bronzes, faceira
febril, brasileira,
fuleira e faminta
Fonte aguardente
Fogueira infinita!
Me ama!
Me inflama!
Me toma até o fim
Fica
Me esfria
Me afaga a fadiga assim...
Frágil, seu passo se agita
Fracos, meus braços levitam
Férteis, dois sambas se imitam
Fora nos ferve o verão
Dentro o samba é um vulcão
E ela então, nem hesita
Faz a vontade fulgir mais aflita
e pisa e deslisa e improvisa e põe fé
Sem fantasia, essa filha de Oxumaré
sabe que o samba é a magia no pé
E assim é Maria José
Samba, Maria com fé
Samba, mania no pé
Samba pra Vila Isabel
Samba pra Padre Miguel
Samba, Maria José!
Samba do Amor
Só o amor
tem força pra derrotar tanto horror,
tem fé, tem pé pra sambar e compor,
tem pra mandar borandar a minha dor...
Só o amor
restou pra restituir a raiz,
ficou pra reconstruir meu País
matou a mágoa como eu sempre quis...
Machucou,
ver nossa união desabando e a traição
tramando pranto e mais luta,
mais fome e mais prostituta...
E o mar da miséria invadiu a paz
Pois eu, com todo o mau-tempo,
prossigo e digo e sustento:
quem perde crescendo vence mais!
Meu samba é o filho do bem
que o amor me faz
Meu filho é o samba do amor
que meu bem me faz
Quem
Quem é que trouxe a esperança
do fundo do anoitecer?
Quem fez a flor das infâncias,
na dor, reaparecer?
Quem é que me olha e me amansa
de tanto riso e prazer
e goza e prosa e não cansa
de amar e quase morrer?
Mulher nua
Pomba no ar
No lar
Me faz refém
Dá fé pr'eu fechar o harém
Me faz neném
Teu sol, teu fruto, teu gen
Teu pombo amigo que vem
voar também
contigo até mais além
Uvardente (Pétite Syrah)
Vi cintilar teu vinho à flor da pele
e, ao te provar, mulher,
disse o aroma: toma
que o teu bem te quer
Senti teu cais, um ninho em porto alegre
Felicidade ao sul
de um corpo amante em meu rio grande
Cor do sangue em fruto nu
Mãos pelos cachos, se abre em pétalas
o broto em flor pingente nos quadris
Saliente, a língua lava os lábios
da uvardente dos barris
Pungente, a voz, me lembra Elis...
Fermenta, uvinha... ferve pimentinha...
Boca no teu buquê,
tua prenda minha desarrolha o meu prazer
Jorra, parreira... goza, sementeira
Que bom te olhar, mulher
ver que meu bem me quer
Meu Amor, Santa Teresa
São quase seis da tarde, o bonde tá
que já nem cabe guri
Depois de um geladinho na estação
a gente pode subir
Bondinho é tão gostoso!
Corre não. Sobe bem
pras Naves e Prazeres...
pois o chopp também...
E os bondinhos vão partindo...
E os choppinhos vão saindo...
Eu vi, na esquina co'a Santa Cristina,
a mão divina esculpir
Rapaz, que coisa louca a flor-de-boca
e o olhar... como eu nunca vi...
Passei meu Vista Alegre e o França
até os Dois Irmãos,
voltei no mesmo bonde
e tava lá a inspiração!
Escadaria da André...
Que bonita ela é...
Caramelos - braços belos -
debruando o branco do vestido...
Tetas tesas recheando e
retesando a teia do tecido...
Que ousadia! Que beleza!
... me perdoe - ao pobre - a Poesia...
Meu amor, Santa Teresa,
cada curva dela te copia!
Só vi, no Paula Mattos, pé tão lindo,
em capoeira no ar!
No Morro da Coroa, o Samba faz
tão fina mão batucar!
Curvelo, é o zigue-zague
nos seus pelos pincel
e o Largo é seu sorriso!
É o Guimarães do Miguel!
Lagoinha, veste o céu
e o Silvestre, verdes véus
Longe o Cristo, o Carioca lotou
Seis da tarde, Ôlho no trilho eu estou
Lá vem ela! Ave Maria no Morro!
A estrela d'alva aterrisou! Encarnou!
O Olhar
Falta de alguém
que olhe pra mim...
E que veja em mim
o outro...
Quem será, quem
me quis mal assim?
Nunca fui eu...
Nem louco...
O olhar,
quando dura,
quando fura,
quando atura
faz sonhar...
Que ventura,
eu te encontrar...
Quando pensa,
luz intensa,
recompensa a solidão...
Quando liga,
quando amiga,
não quer mais olhar
pro chão
Não quer mais
humilhação,
Se umedece na emoção...
Coração
O Cavaleiro da Esperança
Quem só espera não alcança
Mas quem não sabe esperar
erra demais, feito criança
Cai. E até se entrega ou trai.
E cansa de lutar
O Cavaleiro da Esperança
faz a hora acontecer
Faz punho armado
Faz punjança
Mas combate pela paz
pro povo não morrer
Pois Ogum Guerreiro não morre
prestes a encontrar
uma estrela d'alva para nos guiar
É soldado alerta. É São Jorge
prestes a enfrentar
o dragão do mal
que quer nos matar
Ana e a Lua
Lua,
rouba meus ares
pra iluminares,
mais que o neon,
ruas,
bares e lares
onde roubares
é um gesto bom...
Frias
noites vazias
sem harmonia
fora do tom
Dias
Em que eu perdia
tua companhia
pelo Leblon
Medo de ser vencida
você se viu traída
Levou no ventre a vida...
Minha voz ja se esvaia
quando veio a poesia,
me trouxe onde eu queria
pra afogar tua agonnia;
tentar todas as
vias
pra volta tua,
pra casa tua,
pros dedos meus
Sua,
toda água é tua,
grávida e nua
graças a Deus
Dama
me ama, me mama,
me une na cama
ao feto meu
Musa,
lambe, lambusa,
me usa, me abusa...
Sou filho teu
Donde
Cuba
Ya te conoci liberta
Fuiste huella
y puerta abierta
donde, adentro,
conoci
cunas
de culturas y cariños
donde se calientan niños
que hoy son hijos
para mi
Porque un hijo
no es tan solo
él, a quién amo
y sé que es mio
Álguien dijo
que tenerlo
es que es saberlo
Creo que si
Pero,
Cuba,
matrimonio
entre mi sueño
y la realidad
sin dueños
me hago hijo
para ti
Menino da Silva
Eu era um menino
do sol e da Silva
Mas tinha meu pai
Tocando bandôneo
na boate ou no baile
alegrando os casais
trocando a jornada
pela madrugada
por poucos mil réis,
deitando cansado,
minha mãe de lado
ao toque dos quartéis...
E eu que vivia cantando
uma vez chorei tanto
e nao quis esquecer...
Fui lá na origem do mal
e encontrei afinal
quando, como e porquê
nasce a exploração
cresce a acumulação
e o peão reproduz
sou feito meu pai...
Mas meu sonho não vai
se acabar nessa cruz
A Norma
Norma
já nasceu entre os iguais
Norma
já cresceu linda demais
Dos rixás tem a voz,
o gesto, a eloqüência,
fidelidade aos heróis e ancestrais...
Da Pátria pra todos vem
a sobrevivência,
a cura das doenças,
o estudo da ciência...
Destreza pra demonstrar,
franqueza pra desfraldar,
mamãe pra dar de mamar,
humana,
foi guerra e Norma venceu
Da Serra Mestra desceu
pra terra onde o sol é seu:
cubana!
África Mãe
Brasil: África
me devolve meu canto...
Meu sofrimento foi tanto
que até deixei de cantar!
Conta, minha mãe preta bonita,
como se faz essa luta...
Meu povo vai te escutar
Faz da tua treva o amanhecer
Vida é só uma estrada e vai levar
Aonde o teu amor puder
Vida é teu momento de entregar
É dentro de você, mulher
Neném, agora sim num corpo só
Os nossos corpos sós vão se encontrar no amor
Amor, agora sim eu vou te amar
Mais do que te amar vou te saber
Assim, meu colo acolhe a tua mão
E colhe em tua mão o tato bom do amor
Assim, meu braço estreita o nosso amor
Deita sobre o teu o meu viver
Quero, e esse é o momento de alcançar
Vir junto e mergulhar no amor
Quero, deixar no mundo do teu ser
No fundo do teu ser, o amor
Comigo agora, vem, vem, vem neném.
Pra Ser Brasileira
O meu mal foi querê-la ver ser igual,
entregar meu canto geral
e amar sem medo ou mentira...
O meu mal é o tê-la aceito oprimir
Cantei pra acordar. Ofendi
Sem saber calei minha lira
Capital... é sua segurança, afinal...
Fim da confiança: sinal de união e fé
passageiras
Anormal onde a norma é ver e calar,
quero enlouquecer e gritar
pra desmascarar Pátria inteira!
Tenha vergonha de ser brasileira
Tenha vergonha por ser brasileira
Tenha vergonha pra ser Brasileira
Página feita por Paulo
Filho.
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